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Mesa redonda: O Ensino para a Humanização, com Dr. Ricardo Tapajós M. C. Pereira (FMUSP), Dr. Joaquim Edson Vieira (CEDEM) e Dra. Patrícia Lacerda Bellodi (CEDEM), realizada no dia 10 de julho, das 16hrs às 18hrs.
Pergunta nº 2, de Mariana Barbosa Santana: Considerando a fala ''o que estou fazendo aqui?'', como transformar a incerteza em relação à profissão, embora com um pequeno interesse, em uma quase certeza?
Resposta do Dr. Joaquim Edson Vieira: Acho que a expressão fora formulada por Patrícia Bellodi ou Ricardo Tapajós, mas, se eu puder ajudar, vamos lá. Vou propor duas respostas, uma por experiência pessoal (que não deve considerar de muito impacto) e outra da área de psicologia, desenvolvimento pessoal (que não é minha área, mas há um livro que indico).
1. Acho que você já ouviu muitos conselhos - testes vocacionais, exemplos familiares ou próximos, histórias de vida. Pessoalmente, sugiro que você elimine o que não gosta. Mesmo que a perspectiva de ganhar dinheiro, fama ou algum outro tipo de recompensa seja animadora ou até mesmo indubitável, minha impressão pessoal é que quando alguém faz algo que não gosta, com o tempo passa a detestar, tanto o que faz, quanto as pessoas que também fazem a mesma coisa. E o que me parece pior: passam a tratar de maneira rude tudo e todos que estão por perto. Então, escolha algo que gosta. Aqui reside outro problema: gostar de mais de uma coisa. Bem, essa dúvida não desaparece nunca... Se você faz medicina, minha sugestão é que, ao se encantar com uma especialidade, procure ver o dia-a-dia do profissional e não o invólucro acadêmico. A rotina, o esquema de trabalho (horas/dia, dias/semana), as obrigações profissionais e com pacientes, o grau de controle sobre o próprio tempo e outras coisas que são importantes para você e diferentes em cada um.
2. Há um trabalho divulgado pelo Dr. Kegan (no livro sugerido) em que ele promove um "auto-entendimento". Bem, não é uma abordagem de auto-ajuda, mas termina por se fazer assim (se não me engano, tem uma linha no pensamento de Lacan). Ocorre que boa parte das coisas que evitamos são assim por que temos algum receio de enfrentar suas consequências ou obrigações. O "segredo" parece estar em que, provavelmente, não conseguimos enxergar que esse receio pode estar fundamentado em alguma fantasia inadequada ou mal-avaliada. Por conta disso, deixamos de fazer "aquilo" porque não queremos nos deparar com uma fraqueza (escondida) que por sua vez iria revelar quem ou o que achamos que somos verdadeiramente... Confuso? Dou exemplo - um professor pode alegar que não consegue desenvolver um maior envolvimento pessoal com seus alunos e assim se tornar acessível e um bom modelo profissional, porque não tem tempo, ou seja, precisa "dar aula" com conteúdo (que é muito extenso, etc). Esse professor, na verdade, pode ter uma imunidade voltada contra a possibilidade de expor o que acredita ser sua deficiência pedagógica (que não existe, uma vez que o aluno quer vê-lo como modelo profissional) e de que poderá perder tempo de seu consultório, por exemplo, e reduzir ganhos, quando na verdade o consultório pode se tornar mais qualificado ou o tempo melhor aproveitado (pela necessidade de se priorizar atividades). Resumindo, observe se você não estaria "fantasiando" alguma dificuldade, que, de verdade, está defendendo alguma deficiência que você não se sente apta a enfrentar. Se for simples, alguns amigos podem ajudar, se for complexa, talvez um profissional da psicologia.
Livro indicado: How the Way We Talk Can Change the Way We Work: Seven Languages for Transformation. Robert Kegan ISBN 0-7879-6378-X
Mesa redonda: O Ensino para a Humanização, com Dr. Ricardo Tapajós M. C. Pereira (FMUSP), Dr. Joaquim Edson Vieira (CEDEM) e Dra. Patrícia Lacerda Bellodi (CEDEM), realizada no dia 10 de julho, das 16hrs às 18hrs.
Pergunta nº 3, de Ademir Lopes Junior: Como promover processos de transformação em estruturas fragmentadas e hierarquizadas como são as faculdades? Como trabalhar quando o corpo discente é mais conservador que o corpo docente? Mesmo com a tutoria ou introdução das disciplinas humanísticas, não corremos o risco de reproduzir o modelo tradicional?
Resposta do Dr. Joaquim Edson Vieira: Perguntas certamente difíceis... Vou mudar a estratégia e tentar oferecer respostas simples:
1. Tutoria e disciplinas humanísticas: em minha opinião, as disciplinas das áreas "não-médicas" deve(ria)m fazer parte dos temas médicos e jamais serem apresentadas isoladamente. Estatística, Economia, Sociologia, Comunicação e todas que sejam identificadas com áreas distantes da clínica ou da fundamentação da clínica (ciências fisiológicas e anatômicas) devem ser temas de questionamento do aluno e do professor durante uma discussão de caso clínico - em minha opinião uma das formas ideais, e também ser apresentada como complemento de uma aula tradicional - que pode ser mais trabalhoso.
2. Corpo discente mais conservador: se os alunos preferem aula tradicional, em minha opinião deve ser porque há maior economia de tempo e eles podem fazer outras coisas mais interessantes após as aulas... Também acho que nas aulas tradicionais a regra do jogo é clara e já conhecida: acertar mais de 50% das respostas, sejam elas em qualquer forma (teste, escrita). Então, é possível que o conservadorismo seja uma manifestação do ambiente acadêmico, aliás de baixo alcance acadêmico. Se essa tese estiver correta, primeiro será necessário modificar as propostas dos professores, que pode direcionar para a primeira questão, respondida abaixo:
3. Estruturas fragmentadas das faculdades: a instituição deve(ria) promover ou estimular práticas que valorizem o ensino, que por sua vez pode ser um elo entre as atividades de ensino e pesquisa (sempre ditas como indissociáveis e pouco vistas na prática). Embora ainda teórico, gostaria de ver (e ter) espaço onde os professores pudessem se exercitar com oportunidades para: disseminar práticas (educacionais) de sucesso; associar teoria e prática educacional em seu desenvolvimento docente; estudo das próprias práticas de ensino; reconhecimento dos problemas (do cotidiano) dos professores; contexto institucional - a Instituição deve(ria) se perguntar: onde e como quer ser reconhecida?; programas regulares para contextualização de experiências de ensino; profissionalismo docente, onde os professores podem; reconhecer a necessidade do preparo para ensinar; ampliar e aprofundar a identidade institucional pela excelência.
Sugiro um texto, que pode ser visualizada clicando aqui: Steinert Y S et al. Med Teacher 2006, 28: 497 |